O governo Bolsonaro montou uma ofensiva coordenada, envolvendo as principais embaixadas do Brasil na Europa, para blindar a imagem do então presidente, segundo telegramas oficiais obtidos com exclusividade pelo SBT News com base na Lei de Acesso à Informação (LAI). A ação do Itamaraty mirava importantes veículos de comunicação europeus, que associavam em diferentes graus o então mandatário ao assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), em 14 de março de 2018.
Os telegramas de seis Embaixadas do Brasil no exterior — na Alemanha, França, Itália, Suíça, Cuba e Jamaica — estavam sob sigilo de 100 anos, imposto pelo governo de Jair Bolsonaro, mas foram revelados após reavaliação feita pela Controladoria-Geral da União, a pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Eles foram encaminhados para o Ministério das Relações Exteriores entre novembro de 2019 e dezembro de 2020. Entre os documentos, estão textos enviados pelo embaixador do Brasil em Roma, na Itália, Hélio Vitor Ramos Filho, e o representante do país em Berna, na Suíça, Evandro Didonet.
As autoridades brasileiras enviaram cartas a diretores de jornais fazendo considerações sobre as publicações, além de repudiar o conteúdo de algumas delas.
O SBT News conversou com Rubens Barbosa, que foi embaixador do Brasil em Londres, na Inglaterra, entre 1994 e 1999 e em Washington, nos Estados Unidos, nos anos de 1999 a 2004. Para ele, os embaixadores foram “um pouco longe” ao escrever os ofícios.
Segundo Barbosa, as autoridades que trabalham nas Embaixadas seguem instruções do governo. Teria vindo, então, da gestão Jair Bolsonaro o pedido para responder aos jornais. Porém, ele alerta que essas ações podem ser justificadas pelo papel de “defesa dos interesses dos brasileiros” no exterior.
Carta ao La Repubblica: repúdio da embaixada brasileira
Em 13 de fevereiro de 2020, o embaixador do Brasil em Roma, Hélio Vitor Ramos Filho, comunica ao Ministério das Relações Exteriores que enviou uma carta de repúdio ao diretor do jornal La Repubblica após uma reportagem “levantar suspeitas sobre a honra” do ex-presidente Jair Bolsonaro ao associá-lo ao assassinato de Marielle Franco. Quatro dias depois, em 17 de fevereiro, o Itamaraty encaminhou o conteúdo completo da carta para o Secretário Especial de Comunicação Social da Presidência da República, Fábio Wajngarten.
Segundo o embaixador, a matéria “Brasile, ucciso il killer che sapeva tutto sull’omicidio di Marielle Franco” (Brasil: morto o assassino que sabia tudo sobre o homicídio de Marielle Franco), publicada pelo La Repubblica em 10 de fevereiro de 2020, fazia “ilações difamatórias”, com o único objetivo de levantar suspeitas contra Bolsonaro por meio de uma “publicação irrazoável”.
O trecho que mais incomodou Ramos Filho foi o último parágrafo, que ligava a família de Jair Bolsonaro ao miliciano Adriano da Nóbrega, morto em 9 de fevereiro de 2020, em uma operação policial na Bahia. Capitão Adriano, ex-policial militar do BOPE, era apontado como um dos líderes do Escritório do Crime — grupo de matadores de aluguel que tinha entre seus integrantes Ronnie Lessa, acusado de matar a vereadora Marielle Franco e o motorista dela, Anderson Gomes.
“Uma investigação perigosa para a família de Jair e para o próprio presidente. Um entrelaçamento de relações e amizades que pode chegar até o Planalto, abrindo caminho também para as conexões entre política e crime, entre lideranças locais e milícias. Entre instigadores e autores do assassinato de Marielle Franco. Melhor fechar o jogo. Com três tiros que silenciam uma importante testemunha. Mas desconfortável”, diz a reportagem do jornalista Daniele Mastrogiacomo.
A carta diplomática ainda ressaltou que o país é defensor do direito de opinião e da imprensa livre.
