O dólar caminha para a pior semana desde junho após uma sequência de instabilidades políticas nos Estados Unidos. Nos últimos dias, as idas e vindas do presidente Donald Trump em temas como tarifas comerciais, política externa e o comando do Federal Reserve (Fed) passaram a pressionar a moeda americana.
Além disso, o mercado reagiu ao aumento das incertezas diplomáticas e institucionais. Como resultado, o dólar caiu 0,8% na semana, segundo o Bloomberg Dollar Spot Index. Na sexta-feira (23), o índice atingiu o menor nível em três semanas. Enquanto isso, investidores aguardam a decisão de política monetária do Fed, marcada para 28 de janeiro.
Moeda americana perde força no cenário global
O dólar pior semana também reflete um movimento mais amplo de enfraquecimento global. Até 23 de janeiro, o índice DXY acumulava queda de 0,58% no mês. Além disso, em janeiro, a desvalorização frente a uma cesta de moedas já chega a 4,83%.
Por outro lado, o histórico recente chama atenção. Em 2025, o dólar registrou recuo de 8,61%, o pior desempenho anual em cinco décadas. Nesse mesmo período, o DXY caiu cerca de 9,5%. Dessa forma, o mercado passa a questionar a força estrutural da moeda americana no médio prazo.
Instabilidade política nos EUA pressiona o câmbio
A política externa dos Estados Unidos voltou ao centro das atenções dos investidores. Durante a semana, Trump ameaçou impor tarifas contra países europeus em meio à disputa envolvendo a Groenlândia. No entanto, dias depois, o presidente recuou após negociações com a Otan durante o Fórum de Davos.
Como consequência, as reações do mercado foram imediatas. As opções de venda contra o dólar dispararam. Além disso, operadores passaram a pagar prêmios maiores para se proteger contra novas perdas da moeda. Esse comportamento representa, portanto, uma reversão em relação à semana anterior, quando o otimismo com o dólar estava no maior nível desde novembro.
Fed no radar aumenta a volatilidade
Mesmo com os rendimentos dos títulos do Tesouro americano em alta, o dólar seguiu em queda. Segundo analistas, no curto prazo, os riscos políticos pesam mais do que os fatores monetários tradicionais.
Atualmente, o mercado precifica duas reduções de 0,25 ponto percentual nos juros dos Estados Unidos ao longo de 2026. Para a reunião da próxima semana, contudo, a expectativa majoritária ainda é de manutenção da taxa. Ainda assim, a volatilidade de curto prazo subiu e atingiu o maior patamar em mais de um mês.
Além disso, a indefinição sobre a sucessão no comando do Fed contribui para o cenário de incerteza. Trump declarou que já concluiu as entrevistas para o cargo e indicou ter um nome em mente. Com isso, voltam à tona dúvidas sobre a autonomia do banco central americano.
Dólar recua frente ao real
No Brasil, o movimento de baixa do dólar também se intensificou. Até 23 de janeiro, a moeda americana acumulou queda de 4,83% em relação ao real. Nesse período, a cotação recuou de R$ 5,52, no início do mês, para R$ 5,28 na sexta-feira.
Além disso, a menor cotação do ano foi registrada na quinta-feira (22), quando o dólar também fechou a R$ 5,28. No acumulado de 12 meses, por sua vez, o real apresenta valorização de 10,49%, reforçando o bom momento da moeda brasileira.
Fatores que sustentam a valorização do real
A valorização do real se apoia em fatores internos e externos. Em primeiro lugar, a taxa Selic em 15% ao ano segue atraindo capital estrangeiro. Além disso, o Brasil registrou um superávit comercial robusto em 2025, que alcançou US$ 68,3 bilhões.
Ao mesmo tempo, as expectativas de cortes de juros nos Estados Unidos contribuem para o enfraquecimento global do dólar. Por isso, moedas de países emergentes, como o real, acabam se beneficiando desse cenário.
Projeções para o câmbio em 2026
As projeções indicam um real relativamente valorizado ao longo de 2026. O Bank of America, por exemplo, estima o dólar em R$ 5,25. Já o Itaú Unibanco projeta a cotação em R$ 5,50. O BNP Paribas, por sua vez, vê possibilidade de o dólar chegar a R$ 5,60 no terceiro trimestre, antes de nova apreciação após as eleições.
Enquanto isso, o UBS estima o dólar em R$ 4,90 ainda em 2026, com chance de estabilização abaixo de R$ 5. Em resumo, o desempenho do câmbio dependerá da continuidade de políticas econômicas favoráveis e da entrada de investimento estrangeiro direto.
Com a política fiscal americana pressionada, o Fed sob crescente escrutínio político e a economia global em reorganização, o dólar perde parte do status de refúgio absoluto. Nesse contexto, o real, ao menos por enquanto, continua se aproveitando desse movimento.
