O aumento das vendas nem sempre significa melhora na saúde financeira de uma empresa. Em um cenário de juros elevados e custos operacionais crescentes, milhares de micro e pequenos negócios brasileiros convivem com um paradoxo: faturam mais, mas continuam enfrentando dificuldades para pagar fornecedores, salários, impostos e outras despesas básicas.
Dados da Serasa Experian mostram que o Brasil encerrou 2025 com 8,9 milhões de empresas inadimplentes, o maior número da série histórica. Juntas, elas acumulavam R$ 213 bilhões em dívidas. Desse total, cerca de 8,5 milhões eram micro e pequenas empresas, responsáveis por R$ 185,4 bilhões dos débitos registrados.
O levantamento revela ainda que aproximadamente 96% das empresas inadimplentes do país pertencem ao segmento dos pequenos negócios, que normalmente possuem menor acesso a crédito, estrutura administrativa reduzida e menor capacidade de negociação em períodos de instabilidade econômica.
Embora fatores externos influenciem o desempenho das empresas, especialistas afirmam que boa parte dos problemas financeiros nasce dentro do próprio negócio. Entre os erros mais frequentes estão a mistura entre finanças pessoais e empresariais, a ausência de planejamento tributário e financeiro, falhas na precificação de produtos e serviços e a falta de controle sobre fluxo de caixa e estoque.
“É comum o empresário não conseguir separar o CPF do CNPJ. Quando isso acontece, perde-se a capacidade de enxergar a real situação financeira da empresa”, afirma o contador e sócio da AB Assessoria Contábil, Ricardo Brandão. “É fundamental saber separar CPF do CNPJ, fazer contas bancárias distintas, definir um pró-labore fixo (o seu salário como dono) e fazer uma planilha para despesas pessoais e outra para empresa”, complementa o especialista.
O cenário ajuda a explicar por que empresas aparentemente saudáveis podem enfrentar dificuldades financeiras mesmo em momentos de crescimento. Em muitos casos, o aumento das vendas gera uma falsa sensação de prosperidade, enquanto a geração efetiva de caixa permanece comprometida.
Venda à prazo
Uma situação recorrente ocorre quando a empresa vende a prazo, mas precisa honrar compromissos em prazos mais curtos. O faturamento é registrado imediatamente, mas o dinheiro só entra semanas ou meses depois.
Segundo Brandão, essa diferença entre o momento da venda e o recebimento dos recursos está entre as principais causas dos desequilíbrios financeiros. “O empresário vende hoje, emite a nota fiscal e registra faturamento. Mas o cliente pode pagar apenas daqui a 30 ou 60 dias. Enquanto isso, salários, impostos e fornecedores precisam ser pagos agora”, explica.
Outro equívoco frequente é confundir faturamento com lucro. Enquanto o faturamento representa o volume total de vendas realizadas, o lucro corresponde ao valor que sobra após o pagamento de custos, despesas e tributos.
Na prática, uma empresa pode aumentar as vendas e, ainda assim, reduzir sua rentabilidade ou enfrentar falta de liquidez. A situação se torna ainda mais delicada quando parte dos recursos é utilizada para antecipar compras de estoque ou quando o empresário recorre à antecipação de recebíveis de cartão de crédito, operação que reduz a margem de lucro.
Os primeiros sinais de deterioração financeira costumam aparecer antes da inadimplência. A dependência constante de empréstimos para cobrir despesas operacionais, atrasos recorrentes no pagamento de fornecedores e salários, queda contínua nas vendas e o esgotamento do capital de giro estão entre os principais alertas observados pelos especialistas.
Encerra as atividades
Os reflexos dessa realidade aparecem também nos indicadores de sobrevivência empresarial. Estudo do Sebrae mostra que 29% dos microempreendedores individuais (MEIs) encerram suas atividades antes de completar cinco anos. Entre as microempresas, a taxa de mortalidade chega a 21,6%, enquanto 17% das empresas de pequeno porte fecham as portas no mesmo período.
Segundo o Sebrae, fatores como falta de planejamento, gestão financeira deficiente, baixa capacitação empresarial e decisões tomadas sem acompanhamento de indicadores estão entre as principais causas do encerramento precoce das atividades.
Para reduzir os riscos, Ricardo Brandão recomenda a adoção de controles básicos de gestão. Entre eles estão a manutenção de uma conta bancária exclusiva para a empresa, o acompanhamento diário do fluxo de caixa, o controle de estoque, a gestão das contas a pagar e receber e a padronização dos processos internos. A recomendação é que o empresário estabeleça um pró-labore fixo e mantenha contas bancárias distintas para despesas da empresa e gastos particulares.
“Toda pequena empresa deve adotar, conta PJ exclusiva, fluxo de caixa, controle de estoque, contas a pagar/receber e padronização de processos. Esses pilares evitam misturar dinheiro pessoal com o da empresa e reduzem riscos de prejuízos”, aconselha o contador da AB Assessoria.
O desafio para os empreendedores brasileiros vai além de vender mais. A questão central passa a ser transformar crescimento em geração de caixa, sustentabilidade financeira e capacidade de investimento no futuro. Num ambiente de margens apertadas e crédito caro, a empresa que prospera é a que consegue administrar melhor seus recursos.
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