#Curtida Cultural: Por Vitor Pimentel
Tem música que chega como canção.
E tem música que chega como gesto.
“Salvador”, faixa que abre o primeiro álbum solo de Zeca Veloso, pertence claramente ao segundo grupo. Não é apenas uma canção: é um gesto de conciliação em tempos marcados por ruído, polarização e desencontro.
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Filho de Caetano Veloso, um dos maiores nomes da música brasileira, Zeca carrega desde o nascimento uma dna artístico que não dá para se livrar. De um lado, um pai associado à Tropicália, à experimentação estética e a uma espiritualidade aberta, muitas vezes conectada a matrizes afro-brasileiras. Do outro, um artista que se assume cristão, evangélico, e fala publicamente sobre fé, conversão e experiência espiritual.
O que poderia ser um ponto de ruptura vira, em Salvador, ponto de encontro.
A faixa abre o álbum Boas Novas, lançado em 2024, e apresenta Zeca como compositor de voz própria, ainda que em diálogo evidente com a tradição familiar. Musicalmente, a canção se constrói sobre uma base rítmica que remete a tambores e pulsações orgânicas e baianas, criando uma ambiência quase ritualística.
E a letra conduz como uma narrativa simbólica. Um guerreiro caminha ferido, mas não derrotado. Carrega o corpo marcado, o peito aberto, a fé intacta. A imagem do combate não é bélica no sentido literal, mas existencial. É a luta cotidiana de quem segue em frente, mesmo quando tudo pede recuo.
Há ecos de linguagem bíblica, referências que lembram salmos, parábolas e cânticos antigos, mas também há elementos da cultura brasileira, do imaginário popular, do corpo em movimento. O resultado é uma espiritualidade que não exclui, não impõe e não simplifica.
Zeca já contou que teve uma experiência espiritual ainda criança, por volta dos 11 ou 12 anos, e que essa vivência foi determinante para sua relação com a música. Segundo ele, só depois desse encontro sentiu segurança para seguir um caminho artístico secular mais firme. Essa fé aparece em Salvador não como discurso religioso, mas como atmosfera. Está no tom, no ritmo, no modo como a canção respira.

Foto: Divulgação
A participação de Caetano Veloso e dos irmãos Moreno e Tom transforma a faixa em algo ainda mais simbólico. Uma família cantando junta, apesar das diferenças — ou talvez justamente por causa delas. Um gesto raro em tempos de rupturas fáceis e cancelamentos apressados.
Em um cenário cultural e político marcado por disputas identitárias e trincheiras ideológicas, Salvador propõe outro movimento: o da escuta. O da convivência. O da construção de pontes onde muitos só enxergam muros.
Às vésperas de um novo ano, a canção soa como um convite necessário. Que 2026 seja tempo de menos ruído e mais encontro. De menos combate e mais diálogo. De reconhecer que é possível caminhar juntos, mesmo diferentes.
No fim das contas, como canta Zeca, o caminho pode ser duro. Mas o arco segue estendido.
E enquanto houver música, ainda há travessia.





















































