Nove em cada dez pedidos de devolução de dinheiro perdido em golpes via Pix foram recusados entre janeiro e abril de 2026. Os dados fazem parte de levantamento baseado nas estatísticas de fraude divulgadas pelo Banco Central.
Ao todo, as vítimas abriram 11,8 milhões de pedidos de devolução no período. Desse total, 10,7 milhões foram negados, o equivalente a 90,3%. Nos casos em que houve devolução integral, as vítimas recuperaram R$ 264,7 milhões.
Os dados de janeiro a abril são os mais recentes disponíveis. Segundo o levantamento, as estatísticas posteriores ainda não haviam sido divulgadas pelo Banco Central.
Como funciona a devolução do Pix
O Banco Central criou o Mecanismo Especial de Devolução (MED) para ampliar as possibilidades de recuperação de dinheiro em casos de fraude, golpe ou crime.
Quando a vítima identifica o golpe, deve procurar imediatamente a instituição financeira onde mantém a conta. O banco registra a reclamação e inicia o procedimento do MED quando o caso se enquadra nas regras do mecanismo.
Depois disso, a instituição que recebeu o dinheiro pode bloquear os recursos ainda disponíveis na conta.
As instituições envolvidas analisam o caso em até sete dias corridos. Se identificarem fraude, a devolução pode ocorrer em até 96 horas após o fim da análise, desde que ainda exista dinheiro na conta do fraudador.
Quem decide se o dinheiro será devolvido?
Um ponto importante é que o Banco Central não decide individualmente se a vítima receberá o dinheiro de volta.
A análise cabe às instituições financeiras envolvidas na operação. Elas verificam as circunstâncias da transação e os indícios de fraude.
Por isso, registrar a reclamação rapidamente é fundamental. Quanto mais tempo passa, maior pode ser a dificuldade para localizar e bloquear os recursos.
Por que tantos pedidos são recusados?
A existência de um golpe não significa que o dinheiro será automaticamente devolvido.
O MED depende da identificação de uma situação que se enquadre nas regras de fraude. Além disso, a recuperação depende da existência de recursos na conta que recebeu o Pix.
Se o criminoso já tiver retirado ou transferido o dinheiro, a instituição pode não conseguir recuperar todo o valor.
Nesse cenário, podem ocorrer devoluções parciais caso novos recursos entrem na conta do fraudador dentro do período previsto pelo mecanismo. O Banco Central estabelece monitoramento para novas entradas durante até 90 dias da transação original.
Vítima tem até 80 dias para pedir o MED
O Banco Central estabelece prazo de até 80 dias após a transação para que a vítima solicite a devolução por meio do MED em casos de fraude, golpe ou crime.
Entretanto, a recomendação é não esperar.
Assim que perceber o golpe, o consumidor deve entrar em contato com o banco e informar o ocorrido. Além disso, o Banco Central recomenda registrar um boletim de ocorrência.
A vítima também deve guardar comprovantes, conversas, dados da conta que recebeu o dinheiro e outras informações relacionadas à fraude.
Quais golpes usam o Pix?
O chamado golpe do Pix não representa apenas um tipo de crime.
Os criminosos utilizam diferentes estratégias para convencer a vítima a fazer uma transferência. Entre elas estão:
- falsa central bancária;
- falso funcionário de banco;
- golpe do WhatsApp;
- falso conhecido;
- venda de produtos inexistentes;
- comprovantes falsos;
- alteração de QR Code;
- troca ou manipulação de chave Pix;
- falsas oportunidades de investimento.
Em muitos casos, portanto, o Pix funciona apenas como o meio utilizado para movimentar o dinheiro.
A fraude ocorre antes, por meio de manipulação da vítima, engenharia social, personificação ou invasão de contas.
Golpes digitais aumentam no Brasil
O avanço das fraudes digitais ocorre em um cenário de crescimento dos crimes de estelionato.
Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho, registraram 2.261.055 ocorrências de estelionato em 2025.
O número representa aumento de 429,8% em relação a 2018. O levantamento também aponta que 15,8% da população brasileira com mais de 16 anos, cerca de 26,3 milhões de pessoas, sofreu algum tipo de golpe no período analisado.
Além disso, 83,2% dos brasileiros afirmaram ter medo de sofrer uma fraude pela internet ou pelo celular.
O que fazer depois de cair em um golpe?
Quem perdeu dinheiro em um golpe via Pix deve agir rapidamente.
O primeiro passo é entrar em contato com o banco e solicitar a abertura do MED. Em seguida, é recomendável registrar um boletim de ocorrência e reunir todas as provas disponíveis.
Também é importante acompanhar o protocolo fornecido pela instituição financeira.
Se o problema não for resolvido, o Banco Central orienta que o consumidor pode procurar o Procon ou recorrer ao Poder Judiciário. Também é possível registrar uma reclamação no próprio Banco Central.
MED não vale para qualquer problema
O mecanismo possui regras específicas.
Por exemplo, uma divergência comercial não caracteriza automaticamente fraude. Se o consumidor realizou uma compra e depois ficou insatisfeito com o produto ou serviço, o caso não necessariamente se enquadra no MED.
O Banco Central também estabelece que situações envolvendo uma relação comercial legítima não devem ser tratadas como fraude apenas porque houve um problema na compra.
Portanto, o consumidor precisa diferenciar um golpe de um desacordo comercial.
Pix terá novas ferramentas contra golpes
O sistema também passa por mudanças para tentar aumentar a recuperação de valores desviados.
A partir de 1º de setembro, o MED terá recursos ampliados para permitir o rastreamento do caminho do dinheiro em casos de fraude, facilitando a identificação de contas usadas para receber e transferir os valores.
A mudança busca atingir principalmente redes que utilizam contas de terceiros para movimentar rapidamente os recursos obtidos das vítimas.
Assim, o sistema pretende aumentar a capacidade das instituições financeiras de acompanhar o dinheiro depois da primeira transferência.
Recuperação depende de vários fatores
Os números mostram que solicitar o MED não significa garantia de reembolso.
A recuperação depende da análise do caso e, principalmente, da possibilidade de localizar recursos nas contas envolvidas. Por isso, a rapidez da vítima pode fazer diferença.
Além disso, o consumidor precisa fornecer informações e documentos que ajudem a instituição a identificar a fraude.
O Banco Central reforça que o primeiro contato deve ocorrer diretamente com o banco responsável pela conta da vítima.
O que fazer para tentar recuperar o dinheiro
Quem sofreu um golpe via Pix deve:
- Entrar imediatamente em contato com o banco;
- Solicitar o MED;
- Registrar um boletim de ocorrência;
- Guardar comprovantes e conversas com os golpistas;
- Informar todos os dados da transferência;
- Acompanhar o protocolo do atendimento;
- Procurar o Procon ou a Justiça caso o problema não seja solucionado.
Portanto, embora o MED ofereça uma possibilidade de recuperar valores, os dados mostram que a maioria dos pedidos não resulta em devolução.
Por isso, além de agir rapidamente depois do golpe, o consumidor deve redobrar os cuidados antes de confirmar qualquer transferência pelo Pix.




















































