Os juros altos e Desenrola estão no centro do debate sobre o avanço do endividamento das famílias brasileiras. Segundo o economista Gesner Oliveira, sócio da GO Associados e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), programas de renegociação conseguem aliviar as dívidas temporariamente, mas não garantem uma melhora duradoura quando o crédito continua caro.
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A avaliação ocorreu após o Banco Central (BC) divulgar, nessa sexta-feira (28), novos dados sobre o endividamento das famílias. Em junho, o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas chegou a 28,9%, maior percentual da série histórica iniciada em março de 2011.
Além disso, a inadimplência da carteira de crédito destinada às famílias alcançou 5,8% em julho, também o maior nível registrado na série. Considerando todo o Sistema Financeiro Nacional (SFN), o indicador chegou a 4,9%.
O cenário chama atenção porque ocorre em um momento de mercado de trabalho aquecido. Conforme Gesner, o país registra desemprego baixo, aumento real da renda média e dificuldades de contratação em alguns setores. Mesmo assim, muitas famílias continuam enfrentando dificuldades para reduzir suas dívidas.
Juros altos e Desenrola não resolvem o problema
Para o economista, o custo elevado do crédito ajuda a explicar a permanência da inadimplência. Segundo ele, um desequilíbrio entre as políticas fiscal e monetária mantém a pressão sobre os juros e dificulta a redução do peso das dívidas.
Além disso, Gesner avalia que programas de renegociação, como o Desenrola, conseguem reorganizar débitos e oferecer condições mais favoráveis aos consumidores. No entanto, quando essas famílias voltam a contratar crédito caro, o problema pode reaparecer.
“Você dá anistia, só que logo depois, com um juro tão elevado, logo depois a pessoa está novamente numa situação de inadimplência”, afirmou.
O governo lançou novas medidas de renegociação neste ano. Em maio, uma nova versão do Desenrola passou a atender famílias com renda de até cinco salários mínimos, com taxa máxima de 1,99% ao mês para determinadas operações.
Depois, em junho, o governo criou o Desenrola Adimplentes. A modalidade busca atender principalmente trabalhadores informais que contrataram crédito pessoal com taxas elevadas. O programa permite substituir dívidas de até R$ 15 mil por uma nova operação, também com juros de até 1,99% ao mês.
Crédito pessoal tem juros elevados
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, também demonstrou preocupação com o aumento do endividamento. Durante a Febraban Tech, na segunda-feira (24), ele questionou por que o crescimento da renda não resultou em uma redução mais expressiva das dívidas.
O problema aparece com maior intensidade no crédito pessoal não consignado. Em junho, essa modalidade cobrava juros médios de 149,5% ao ano nas operações sem garantia. Por outro lado, os empréstimos com algum tipo de garantia apresentavam taxa média de 27,5% ao ano.
Além disso, o crédito não consignado cresceu 188% desde março de 2020 e alcançou R$ 397,2 bilhões. Em maio, 68,7% da carteira não tinha garantia, segundo dados apresentados pelo BC.
Por isso, Galípolo afirmou que a autoridade monetária prepara medidas para conter riscos principalmente nas modalidades de crédito mais caras e sem garantia.
Política fiscal influencia os juros
A discussão também envolve a relação entre as políticas fiscal e monetária. Na ata da reunião de agosto, o Comitê de Política Monetária (Copom) afirmou que uma política fiscal contracíclica pode reduzir o prêmio de risco e favorecer a convergência da inflação para a meta.
No encontro realizado nos dias 4 e 5 de agosto, o Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,25% para 14% ao ano. Ainda assim, o colegiado manteve a avaliação de que a política monetária precisa continuar restritiva para controlar a inflação.
Na avaliação de Gesner, o aumento da renda não consegue compensar o peso acumulado das dívidas. Como resultado, as famílias direcionam uma parcela maior do orçamento para juros e amortizações e reduzem o espaço disponível para o consumo.
O economista defende, portanto, um ajuste das contas públicas para reduzir a pressão sobre a política monetária. Assim, uma eventual queda consistente dos juros poderia diminuir o custo das dívidas para famílias, empresas e também para o próprio governo.
a renda com o pagamento de dívidas chegou a 28,9%, maior percentual da série histórica iniciada em março de 2011.
Além disso, a inadimplência da carteira de crédito destinada às famílias alcançou 5,8% em julho, também o maior nível registrado na série. Considerando todo o Sistema Financeiro Nacional (SFN), o indicador chegou a 4,9%.
O cenário chama atenção porque ocorre em um momento de mercado de trabalho aquecido. Conforme Gesner, o país registra desemprego baixo, aumento real da renda média e dificuldades de contratação em alguns setores. Mesmo assim, muitas famílias continuam enfrentando dificuldades para reduzir suas dívidas.



















































