Presidente do Sistema Ponta Negra de comunicação mantém uma rotina ativa entre trabalho, lazer e novos aprendizados, mostrando como convive com a melhor idade sem deixar de fazer planos
Por William Medeiros.
Aos 77 anos, Miriam de Sousa, moradora de Natal (RN), não parece interessada em diminuir o ritmo. Presidente do Sistema Ponta Negra de Comunicação, empresa fundada pelo ex-marido, o jornalista e ex-senador Carlos Alberto, é mãe de três filhas, avó de sete netos e bisavó de dois. Dança, trabalha, viaja, pratica atividades físicas, estuda teclado e, em 2026, decidiu aprender a ser DJ. Também planeja estudar italiano e inglês e, todos os anos, vai a Buenos Aires para fazer aulas de tango. Para o futuro, tem uma meta: chegar aos 115 anos com lucidez e mobilidade.
Mais do que uma lista de atividades, essas escolhas revelam uma maneira de encarar de forma mais otimista a melhor idade da vida, ou seja, a idade atual, que para muitos também pode ser atribuída como envelhecimento. Para Miriam, a idade não deve determinar aquilo que ainda é possível fazer.
Essa compreensão nasceu também das perdas. Ela conta que ficou viúva antes dos 50 anos, depois de 36 anos ao lado de Carlos Alberto. A morte do marido fez com que se perguntasse se conseguiria continuar vivendo. Percebeu, então, que ele havia partido, mas ela permanecia. Decidiu continuar.
Poucos meses depois, viajou para a Espanha. Vieram novas experiências e uma vida que precisou ser reconstruída. Décadas depois, durante a pandemia, outra mudança aconteceu. Segundo a filha, a jornalista Priscila de Sousa, após a morte de algumas amigas, Miriam decidiu aproveitar mais o tempo. Terminou um relacionamento e começou a fazer aulas de dança.
Talvez a melhor idade também ensine a recomeçar, é o que comenta Miriam. Ela reconhece que ficar em casa pode ser prazeroso, mas valoriza os amigos, a atividade física, a música e a convivência. Dança várias vezes por semana e encontrou na música uma forma de se movimentar e criar novas experiências.
Em 2026, fez curso de DJ. A ideia também surgiu pensando nas amigas que passaram por momentos difíceis depois da pandemia. Miriam queria ajudá-las a sair de casa, cantar, dançar e se divertir. Uma nova habilidade acabou se transformando em uma forma de aproximar pessoas.
A história de Miriam também mostra que chegar à melhor idade pode ser uma experiência compartilhada entre gerações. O neto, jornalista Kalis Weber, de 24 anos, define a avó com uma palavra: liberdade. Para ele, o avançar da idade costuma ser associado a uma vida mais parada. Miriam representa o contrário: alguém que continua procurando novas atividades.
Durante a pandemia, Kalis morou com a avó por quase dois anos. A convivência aproximou os dois e transformou as conversas entre eles. Ele passou a enxergar Miriam não apenas como avó, mas como alguém com quem poderia compartilhar escolhas e aprendizados. Kalis diz que ela sempre o incentivou a viver experiências que o dinheiro não compra: as memórias.
É nesse ponto que a longevidade ultrapassa a quantidade de anos vividos. O que uma geração transmite para a seguinte também permanece.
Priscila descreve a mãe como uma mulher ativa e feliz, que aprendeu a não desperdiçar energia com situações ou relações que tiram sua alegria. Brinca que Miriam “voltou a ser adolescente” e já não obedece aos filhos. A mudança de papéis também aparece no humor: se antes ela ensinava aos netos que não era preciso ficar até o fim das festas, hoje, segundo Priscila, é a própria Miriam quem só vai embora “no rodo”.
A dança talvez seja o exemplo mais simbólico dessa transformação. Miriam conta que pessoas já deixaram a pista para assistir a ela e ao professor dançando. Uma senhora disse que parecia ver dois anjos flutuando pelo salão. Para Miriam, aquele comentário mostrou que sua alegria também podia produzir alegria em outra pessoa.
Sua definição de longevidade não termina no corpo. Ela fala em saúde mental, emocional e espiritual, em estar em paz consigo mesma, ser grata pela vida e pela família e fazer aquilo que proporciona prazer. Para ela, cuidar do corpo também significa preservar a mobilidade e a independência.
Miriam não tem medo do avançar da idade. O que considera preocupante é a acomodação. Sua trajetória mostra que as perdas fazem parte da vida, mas não precisam encerrar a possibilidade de novos começos.
Ela perdeu o marido, amigas, encerrou relacionamentos e perdeu o professor de teclado. Ainda assim, continua planejando a próxima aula, a próxima viagem e a próxima música.
E não está sozinha. Miriam conta que tem uma amiga chamada Ruth, de 101 anos. Mesmo com a idade avançada, ela continua frequentando festas, dançando e cantando. Para Miriam, a amiga é exemplo de força e alegria. Uma mulher de 101 anos inspira uma mulher de 77. Miriam, por sua vez, inspira um neto de 24, as filhas e ainda mostra ter muito a ensinar aos bisnetos. É nessa troca que a longevidade também se torna intergeracional.
Talvez os 115 anos desejados por Miriam sejam apenas um número. O mais importante está no que ela pretende fazer enquanto o tempo passa: continuar aprendendo, dançando, encontrando pessoas e criando memórias.
Para ela, chegar à melhor idade não se trata, apenas, de acumular anos. Significa também decidir o que fazer com eles. Uma das lições mais importantes que ressalta é que enquanto houver amanhã, ainda pode existir algo novo para aprender.
























































