O aumento dos casos de queimaduras no Rio Grande do Norte tem acendido um alerta na rede pública de saúde. Nos últimos seis meses, o número de internações passou de cerca de 80 para 160 pacientes. Ao mesmo tempo, o Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel continua funcionando com capacidade reduzida devido à paralisação das obras de reforma da unidade.
Referência para atendimento de pacientes queimados em todo o estado, o setor opera atualmente com apenas 12 leitos, enquanto a estrutura original comportava 20 vagas. Além disso, não há previsão oficial para a retomada ou conclusão dos serviços.
A preocupação aumenta com a chegada do período junino, tradicionalmente marcado pelo uso de fogueiras, fogos de artifício e outros elementos que elevam o risco de acidentes.
Direção teme aumento da demanda durante o São João
Segundo o coordenador do CTQ, Marco Almeida, a capacidade atual da unidade pode não ser suficiente caso ocorra um aumento expressivo de pacientes.
De acordo com ele, um acidente envolvendo várias vítimas ao mesmo tempo poderia gerar dificuldades para o atendimento, já que o hospital costuma operar próximo do limite de ocupação.
Dados levantados pela Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Norte também apontam crescimento nos registros de óbitos relacionados a queimaduras. Enquanto um caso foi contabilizado em 2024, entre seis e oito mortes já foram registradas nos primeiros meses de 2026.
Além disso, a Defensoria destaca que o CTQ é a única unidade especializada em queimaduras no Rio Grande do Norte. Dessa forma, pacientes de todas as regiões do estado dependem exclusivamente do serviço, incluindo usuários da rede privada.
Estrutura reduzida afeta funcionamento da unidade
A reforma em andamento obrigou a desativação de áreas importantes do setor. Como consequência, atividades de reabilitação passaram a ocorrer em espaços improvisados.
Segundo Marco Almeida, o salão destinado à recuperação dos pacientes deixou de funcionar. Enquanto isso, atendimentos terapêuticos passaram a ser realizados nos corredores da unidade.
Outra mudança ocorreu no ambulatório especializado, que precisou ser transferido para dentro da área de internação. Com isso, o fluxo de pacientes foi alterado e aumentaram as preocupações relacionadas ao controle de infecções.
Além disso, a sala de balneoterapia, utilizada para banhos terapêuticos em pacientes queimados, também teve o funcionamento comprometido. Atualmente, os procedimentos ocorrem em áreas compartilhadas.
Defensoria aponta problemas estruturais
Durante inspeções realizadas na unidade, a Defensoria Pública identificou uma série de problemas estruturais e operacionais.
Entre os pontos relatados estão goteiras em enfermarias, trechos com forro danificado, fiação exposta e a presença de roedores em algumas áreas do setor.
O órgão também registrou dificuldades no abastecimento de insumos e carência de profissionais especializados. Segundo a Defensoria, o CTQ enfrenta déficit de médicos clínicos no período noturno, além da escassez de enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e psicólogos.
Diante desse cenário, a instituição instaurou um Procedimento Preparatório de Ação Coletiva (PROPAC) para apurar possíveis violações ao direito à saúde dos pacientes atendidos na unidade.
Reforma tem apenas 1% de execução
A obra de modernização do Centro de Queimados começou em agosto de 2024 e possui contrato estimado em R$ 1,2 milhão. No entanto, apenas cerca de 1% dos serviços previstos foi executado até o momento.
O projeto inclui melhorias nas redes elétrica, hidráulica e de esgoto, além da implantação de novos espaços de isolamento e de uma sala de recuperação pós-anestésica.
Segundo a direção do CTQ, a estrutura atual apresenta problemas antigos. Em períodos de chuva, por exemplo, goteiras atingem enfermarias e já provocaram a desativação temporária de leitos.
Governo busca alternativa para retomar obra
Durante coletiva de imprensa realizada nesta semana, o secretário estadual de Saúde Pública, Alexandre Motta, informou que a reforma está paralisada devido ao descumprimento contratual por parte da empresa responsável.
Segundo o secretário, a construtora não conseguiu cumprir as obrigações previstas no contrato nem apresentou toda a documentação exigida pela administração estadual.
Por esse motivo, o Governo do Estado iniciou o processo de distrato. Além disso, a segunda colocada na licitação recusou assumir os serviços alegando compromissos já existentes em outros contratos.
Posteriormente, uma empresa foi selecionada por meio de dispensa de licitação. Entretanto, a contratada também não atendeu às exigências necessárias para assumir a obra.
Agora, a Secretaria de Saúde trabalha para convocar outra empresa habilitada no processo licitatório. Enquanto isso, pacientes e profissionais seguem convivendo com as limitações estruturais da única unidade especializada em queimaduras do Rio Grande do Norte.





















































