A carne de cachorro vive seus últimos meses de comercialização legal na Coreia do Sul. Nesta semana, o terceiro “boknal”, tradicional período de dias quentes do verão, marcou o último desses dias antes da entrada em vigor integral da lei que proíbe a criação, o abate e a venda de cães para consumo no país.
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Durante décadas, os dias mais quentes do verão movimentaram restaurantes especializados. A tradição associava o consumo de pratos como o “bosintang”, um ensopado de carne de cachorro, à busca por energia para enfrentar as altas temperaturas.
No entanto, a tradição perdeu espaço com o passar dos anos. Além disso, o aumento da criação de animais de estimação e a mudança na percepção sobre o bem-estar animal reduziram o consumo da iguaria.
Carne de cachorro ainda atrai clientes idosos
No Mercado Moran, em Seongnam, um dos locais mais conhecidos da Coreia do Sul para esse tipo de comércio, as ruas ficaram movimentadas durante o horário do almoço. Ainda assim, os restaurantes registraram uma clientela diferente da que frequentava o local décadas atrás.
A maioria dos consumidores que ainda procura o “bosintang” é formada por pessoas idosas. Kim Yong-book, chefe da Associação de Comerciantes do Mercado Moran e profissional do setor há mais de 40 anos, afirmou que o movimento atual representa um cenário de forte declínio.
Segundo ele, o mercado está muito diferente do passado. Dessa forma, o fim da tradição comercial também representa uma mudança profunda para os comerciantes que construíram suas atividades em torno desse produto.
A legislação sul-coreana estabeleceu um período de transição de três anos. Portanto, a proibição entrará completamente em vigor em fevereiro de 2027. Depois disso, quem descumprir as regras poderá enfrentar multas e penas de prisão.
Maioria dos sul-coreanos apoia a proibição
Uma pesquisa divulgada antes da aprovação da lei, em 2024, mostrou a mudança na opinião pública. Mais de 90% dos 2 mil entrevistados afirmaram que não pretendiam consumir carne de cachorro no futuro.
Mais de 80% declararam apoio à proibição. Quase 95% disseram que não haviam consumido o produto no ano anterior.
Dados do governo indicaram que mais de 5,6 mil empresas foram afetadas pela legislação. Ao mesmo tempo, autoridades informaram que a maioria dos canis já havia encerrado as atividades antes do prazo final.
A campanha pela proibição ganhou força durante o governo do ex-presidente Yoon Suk Yeol. Sua esposa, a ex-primeira-dama Kim Keon Hee, também defendeu publicamente a medida e destacou a importância do bem-estar animal.
Comerciantes enfrentam futuro incerto
Para Lee Kang-chun, proprietário de restaurante e ex-presidente de uma associação de comerciantes, a mudança provoca sentimentos contraditórios. Ele trabalha há 37 anos no setor e reconhece que a sociedade sul-coreana mudou.
Lee afirmou considerar correto o fim do consumo de carne de cachorro, especialmente diante das transformações culturais e da percepção internacional sobre o país. Porém, ele também demonstra preocupação com os clientes mais antigos.
Muitos consumidores têm 70, 80 ou 90 anos e viajam longas distâncias para fazer uma última refeição. Por outro lado, os restaurantes precisam encontrar alternativas para continuar funcionando.
Alguns estabelecimentos do Mercado Moran passaram a oferecer ensopado de cabra preta, apresentado como uma opção tradicional e associada à alimentação saudável. Entretanto, os comerciantes relatam dificuldades para substituir a antiga fonte de renda.
Os custos dos ingredientes aumentaram, enquanto os lucros diminuíram. Por isso, alguns proprietários defendem que o governo amplie o apoio financeiro e profissional aos vendedores, especialmente aos mais idosos.
Clientes se dividem sobre o fim da tradição
Entre os consumidores tradicionais está Yoo Jin-sam, de 69 anos. Ela afirmou consumir o prato há mais de quatro décadas e lamentou o fim da comercialização.
Yoo também declarou gostar muito de cachorros. Ainda assim, disse sentir tristeza pela perda de uma tradição alimentar que acompanhou grande parte de sua vida.
Kim Jin-suk, de 71 anos, demonstrou uma reação diferente. O cliente afirmou que não considera o fim da venda um problema e que pode simplesmente escolher outro alimento.
Assim, o fim da carne de cachorro na Coreia do Sul representa não apenas uma mudança na legislação, mas também o encerramento de uma tradição que perdeu espaço diante das novas atitudes da sociedade em relação aos animais.
A partir de fevereiro de 2027, a atividade estará proibida integralmente no país, encerrando um capítulo histórico da alimentação sul-coreana.




















































