Tecnologia começa a ser utilizada para identificar componentes, comparar preços e auxiliar diagnósticos
Por William Medeiros.
A inteligência artificial tem começado a ganhar espaço na manutenção automotiva como ferramenta para identificar peças, comparar preços e auxiliar no diagnóstico de problemas nos veículos. Consumidores, proprietários de oficinas e empresários do Rio Grande do Norte têm utilizado a tecnologia com o objetivo de reduzir o tempo gasto na busca por componentes e evitar erros na hora da compra. Mesmo assim, há quem acredite que ainda existem limitações nesses sistemas. Na prática, uma peça incompatível pode deixar um carro parado por semanas, aumentar o custo do serviço e comprometer a rotina de consumidores e oficinas. Essa é uma das preocupações de quem lida diariamente com o setor automotivo.
O desafio envolve um mercado amplo. De acordo com o Anuário da Abipeças e do Sindipeças, o Brasil tinha aproximadamente 39 milhões de automóveis em circulação em 2024. A idade média desses veículos era de 11 anos e dois meses. Com uma frota numerosa e envelhecida, a identificação de componentes compatíveis é uma etapa importante para quem precisa realizar reparos e manter os veículos em funcionamento.
Na rotina das oficinas, a busca pela peça correta pode consumir tempo antes mesmo do início do conserto. O engenheiro mecânico Arthur Carneiro, proprietário de uma oficina em Natal, capital do Rio Grande do Norte, explica que a equipe precisa consultar fornecedores, comparar valores e confirmar se o componente corresponde ao veículo.

Arthur Carneiro é engenheiro mecânico e proprietário de uma oficina em Natal-RN. Foto: William Medeiros.
Segundo Arthur, o processo leva, em média, de 10 a 15 minutos na oficina. Ele consegue isso através da utilização de um banco de dados com informações do sistema automotivo, o Ultracar, aliado à inteligência artificial do ChatGPT, na versão paga. Mesmo assim, a demora para montar orçamentos e encontrar a peça adequada continua sendo um dos desafios da administração do negócio. “Hoje em dia é um dos maiores problemas na nossa parte administrativa: é a demora para você montar um orçamento decente, procurar o melhor preço e conseguir entregar o quanto antes ao cliente”, relata.
Arthur estima que a oficina receba pelo menos uma peça errada por dia. A avaliação é baseada na experiência da empresa. Quando isso acontece, o serviço pode ser interrompido, o componente precisa ser devolvido e o cliente espera mais tempo pelo veículo. “Eu estimo que pelo menos você perca aí, em média, duas horas por peça errada, pelo menos”, afirma.
O problema também pode alterar o valor inicialmente apresentado ao consumidor. Arthur conta que, em um dos casos, a oficina passou um orçamento para a substituição de uma caixa de direção. Depois de receber um componente incompatível, descobriu que a peça correta custava quase o dobro. “A gente passou o orçamento de 1.700. Quando mandaram a errada, quando foi ver o modelo de fato era o que correspondia ao carro, era o dobro do valor, era 3.000 e lá vai fumaça”, diz.
A experiência de quem precisa de reparo
Para quem depende do carro no dia a dia, a demora na identificação ou na entrega de uma peça também pode representar prejuízo. A jornalista Val Lima, de 59 anos, já enfrentou uma situação em que um componente incompatível atrasou a conclusão de um serviço por aproximadamente 45 dias.
O problema envolveu um sensor responsável por enviar informações à central eletrônica do veículo. Apesar de a numeração da embalagem corresponder à solicitada, a peça que estava dentro da caixa não era adequada para aquele modelo. O mecânico identificou a incompatibilidade antes da instalação.
“Quando a peça veio errada, criou um problema da devolução. Eu tive que mandar de volta para o fornecedor. O carro estava com o motor aberto esperando essa peça para a conclusão do serviço”, conta Val. ”Uma coisa que era para ter sido resolvida em uma semana. Imagina aí o espaço de uma oficina ocupado 45 dias?”, questiona.
O servidor público Raphael Moreira, de 41 anos, utiliza a tecnologia para pesquisar componentes automotivos. Quando precisa comprar uma peça, ele procura o número de referência, consulta diferentes sites e tenta verificar a confiabilidade dos vendedores.

Raphael Moreira é servidor público em Natal-RN. Foto: Cedida.
Raphael conta que já utiliza ferramentas de inteligência artificial, através do sistema Gemini, do Google, para comparar preços e características dos produtos. Em suas pesquisas, pede tabelas com informações sobre valores, originalidade, vantagens e desvantagens, além de links para os sites de venda.
“Eu peço para ele fazer uma tabela comparativa, com valor das peças, se a peça é original ou não, vantagens e desvantagens daquela peça, link para o site e se o site é confiável ou não”, explica.
Apesar de reconhecer a ajuda da tecnologia, Raphael considera que a confiança na prestação do serviço continua sendo um dos principais pontos a melhorar no setor. Mesmo acompanhando o mercado automotivo e tendo feito curso de mecânica, ele afirma que ainda sente insegurança ao contratar uma oficina. “Mesmo assim, você vai fazer o serviço em algum lugar e fica desconfiado. Imagina uma pessoa que tem zero conhecimento?”, observa.
Val conta que, atualmente, com o e-commerce, é possível adquirir peças de forma mais rápida e concluir serviços em oficinas de forma mais rápida. No entanto, ao ser questionado a respeito da utilização da inteligência artificial para acelerar o processo, alega que a tecnologia precisa considerar não apenas os códigos e as informações básicas do produto ou do veículo, mas também as características da peça que será instalada.
“A inteligência artificial vai ter esse poder de identificar [de forma fidedigna]? Eu imagino que ela iria trabalhar pela numeração: ‘Não, a numeração é essa’. Só que o mecânico viu lá que a caixa da peça era a numeração certa, mas a peça dentro da caixa era outra. Como é que a inteligência artificial vai saber que aquela peça era verdadeira ou não?”, pergunta.
Empresa potiguar desenvolve inteligência artificial para identificar autopeças
É nesse cenário que empresas de tecnologia buscam desenvolver ferramentas para facilitar a identificação e a compra de componentes. No Rio Grande do Norte, a startup Hubbi Parts, que surgiu por meio do programa de incubação do Instituto Metrópole Digital (IMD) da UFRN, trabalha em uma plataforma que utiliza inteligência artificial e uma base de dados especializada para relacionar peças aos veículos.
A empresa foi criada por Igor Mesquita, que começou a trabalhar no setor de autopeças em 2005, em um negócio da família. Depois de vivenciar as dificuldades do mercado, ele decidiu desenvolver uma solução tecnológica para enfrentar problemas como a dificuldade de encontrar componentes e os erros na venda.
“Esse setor de autopeças é muito carente de inovação. Ainda hoje se vende peça errada ou você tem dificuldade de encontrar peça”, afirma.

Igor Mesquita é idealizador da Hubbi Parts. Foto: William Medeiros.
Segundo Igor, a Hubbi trabalha desde 2021 no mapeamento, na catalogação e na padronização de informações sobre autopeças. A base reúne dados de veículos fabricados ou importados para o Brasil desde 1950, incluindo modelos, versões, motores e variações. A empresa informa que o sistema conta com mais de 2,3 milhões de produtos padronizados.
A plataforma permite que o usuário informe a placa do veículo para consultar informações e localizar componentes compatíveis. De acordo com o fundador, a proposta é reunir em um mesmo ambiente dados sobre o automóvel, as peças disponíveis, os fornecedores e os preços.

Como a Hubbi Parts funciona. Foto: Arte IA / William Medeiros.
“O processo de cotação era falho porque era telefone, WhatsApp, e-mail, muito demorado para você chegar no final de uma cotação. E hoje a gente, na solução, você só digita a placa do carro, ele identifica lá tudo sobre o veículo e diz quais são as peças certas, onde tem e quanto é. Então, um processo que podia demorar até 48 horas hoje pode ser feito em 10 segundos”, afirma Igor.
A comparação entre os prazos é apresentada pelo fundador como resultado da experiência da empresa com o processo de cotação. A Hubbi recebeu um aporte de R$ 6 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, por meio do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, para desenvolver soluções de inteligência artificial voltadas ao setor automotivo.
Apesar do avanço, o próprio empresário reconhece que a tecnologia ainda exige acompanhamento humano. Entre as limitações, ele cita a possibilidade de a inteligência artificial apresentar respostas incorretas, dentre outros quesitos.
“Ainda não é possível resolver tudo, porque a IA ainda vai ter algum nível de alucinação. Tem uma limitação de tokens, que é custo mesmo. Se você usa muito, muito, a conta também fica cara. (…) Tem limitações que exigem validações humanas ainda. O processo de treinamento de uma IA não é só jogar um monte de informação lá e mandar ela se treinar sozinha ”, explica.
Tecnologia não substitui avaliação técnica
A possibilidade de cruzar informações e identificar componentes compatíveis pode ajudar profissionais e consumidores, mas a inteligência artificial não elimina a necessidade de avaliação técnica. O professor da disciplina de mecânica automotiva do IFRN, Pedro Henrique, explica que a identificação de peças depende de informações como marca, modelo e ano de fabricação do veículo.
Segundo ele, quando a peça original não está disponível ou tem um preço elevado, pode ser necessário buscar componentes similares. Nesses casos, a comparação das especificações técnicas é fundamental para verificar se existe compatibilidade.
“Ela pode ser utilizada para cruzar essas informações de um equipamento com o outro e ver se é compatível”, afirma, ao comentar uma das possibilidades de uso da inteligência artificial.
Pedro ressalta, porém, que a decisão não deve ser tomada apenas com base na resposta de um sistema automatizado. A conferência das especificações por um profissional continua necessária, principalmente quando a substituição envolve componentes do motor ou sistemas de segurança. “Substituir a peça simplesmente confiando no sistema automatizado seria um erro grave. Ele teria que conferir as especificações técnicas pessoalmente”, alerta.
Para o professor, a inteligência artificial também pode ter aplicação importante no diagnóstico de falhas. Com uma descrição detalhada dos sintomas e informações adequadas, a ferramenta pode auxiliar o profissional na pesquisa das possíveis causas de um problema.
Novas aplicações em desenvolvimento
Além da identificação de peças e da comparação de preços, a inteligência artificial também pode ser utilizada na análise de informações geradas pelos próprios veículos. Uma das possibilidades envolve equipamentos conectados à entrada OBD, sistema de diagnóstico presente nos automóveis.
A Hubbi afirma que desenvolve, em parceria com a UFRN, um dispositivo capaz de coletar dados do veículo e enviá-los diretamente para a nuvem. A proposta é que a inteligência artificial analise essas informações e ajude a identificar possíveis falhas.
“O hardware, beleza, ele coleta dados, mas o que fazer com esse dado? A partir daí, entra a inteligência artificial, uma camada ali como se fosse um mecânico, analisando os dados coletados e chegando em diagnóstico”, explica Igor.
O empresário também cita a manutenção preditiva e o diagnóstico remoto entre as possibilidades que a empresa pretende desenvolver. A primeira busca identificar sinais de que um componente pode apresentar falha antes que o problema aconteça. A segunda permitiria analisar informações do veículo mesmo quando ele está em circulação.
A expansão dessas ferramentas aponta novos caminhos para o setor automotivo, mas também evidencia a importância da qualidade das informações utilizadas pelos sistemas e da participação dos profissionais. Na manutenção de veículos, identificar uma peça pelo código ou pela placa pode ser apenas o primeiro passo. A confirmação de que o componente é realmente adequado continua sendo decisiva para evitar novos problemas.



























































